quinta-feira, 1 de junho de 2017




Galiano 253-268, e as cunhagens das legiões.

Galiano-Áureo cunhado em Roma
Anv. Galiano com capacete, couraça, espada ao ombro e escudo,
IMP GALLIENVS AVG
Rev. Fides em pé, entre duas insígnias militares.
FIDES MILITVM
(Ref. RIC-10, Cohen-230)

1-Histórico

Em setembro do ano 253, Valeriano foi proclamado IMPERATOR  AVGVSTVS pelos seus soldados e associou ao trono imperial seu filho Galiano.

Os dois imperadores vão reinar juntos de 253 a 260, mas, em 260 Valeriano então com 67 anos de idade, foi vencido por Sapor I rei dos Persas e, foi a primeira vez na história de Roma que um imperador romano ficou cativo.

Como prisioneiro, Valeriano  assim como todos os seus  soldados capturados, foram forçados  a participar na construção de uma barragem, que os persas construiam perto da cidade de Gundesapor.
O imperador irá perecer em cativeiro após ter subido as humilhações do rei persa que, entre outras, também se servia dele como estribo para subir para o cavalo.
Escritores cristãos afirmam que após a sua morte, o corpo de Valeriano foi empalhado, pintado de vermelho e pendurado no teto de um tempo.

Galiano agora único governador do Império, continua a lutar com as invasões bárbaras cada vez mais numerosas: Francos, Alamanos, Marcomanos, Quados e Godos das regiões do Danúbio e outros.
Os Francos tornaram a invadir a Gália atravessando o Reno (perto de Colônia) e os Alamanos fizeram o mesmo forçando a fronteira da Récia.

Enquanto combatia na Récia, Galiano ordenou a Póstumo de resistir aos francos com a ajuda de algumas das legiões, que guardavam a fronteira do Danúbio.

Ingênuo (em latim, Ingenuus) então governador da Panônia Inferior, ao ver as suas províncias danubianas sem  defesa contra os ataques dos bárbaros;  manisfestou o seu desacordo ao imperador, ao mesmo tempo que lhe contestou o poder em Panônia.

Para reprimir esta usurpação, Galiano enviou o seu general e comandante da cavalaria Aureolo (Aureolus) combater Ingênuo que derrotou em Mursa no ano 258.
O general acabou por abandonar Galiano no ano 267.

Regaliano (Regalianus) dois anos depois, tomou o poder na mesma região em Panónia, (hoje Áustria e Hungria) que Ingênuo, após do fracasso da revolta deste último.
Todavia nunca foi possível saber se as duas rebeliões tiveram alguma ligação entre elas.

Na verdade, Regaliano foi nomeado imperador para se ocupar dos imperativos de ordem militar.
A população indígena da periféria de Carnunto (cidade de guarnição do Alto Danúbio, a cerca de 20 km a leste de  Viena), ameaçada por uma iminente invasão dos Sármatas e, completamente desemparada, não sabia a qual autoridade deviam pedir auxílio para os defender.
A História de Augusto, pretende que Regaliano morreu “por instigação dos Roxolanos (outra tribo bárbara), com a complicidade dos soldados e gentes da província, que temiam as represálias de Galiano. (Hist. Aug., Trente  Tyr., X,2).

Perante todas estas instigações e ursupações, Galiano mandou que se cunhassem emissões de moedas para os soldados. Todo este numerário, foi destinado aos legionários que pela sexta vez consecutiva, continuaram zelosos e fiéis ao imperador.

Estas emissões comemoram ao mesmo as vitórias de Galiano sobre Ingênuo e Regaliano. Congratulam a sexta aclamação de Galiano como imperador e, glorifica a atividade das legiões.
Cada legião, recebeu ainda como recompensa pela  vitória alcançada no ano precedente contra os Alamanos, o título de “Pia Fidelis”,.
(Pia Fidelis: forma feminina latina de “piedoso e fiel”, cognome atribuído pelo imperador a  muitas legiões romanas, quando lhe tinham demonstrado a sua devoção e lealdade.
Algumas legiões receberam esta honra muitas vezes, e portanto numerosas recompensas).

2- As legiões

Cada legião era autónoma e tinha cerca de 5 600 a 6 000 soldados; por vezes mais.
Geralmente a infantaria tinha 5 500 homens divididos em 10 (cohortes) grupos.
O primeiro composto por 1 000 homens era chamado de milliaria, e os restantes 9 compostos por 500 homens, quinquenaria).
A estes números adicionava-se a cavalaria, um grupo de 120 homens, destribuídos em 4 esquadrões (turmae) destinada principalmente a expedições punitivas.

(Durante as suas campamhas na Gália, as legiões de Júlio César nunca tiveram mais de 3 000 soldados.)

Cada legião tinha um número de ordem e um apelido. Ao lado do número de ordem, encontramos os apelidos que proveem do nome das províncias onde as legiões combateram ou, o lugar onde elas foram formadas: (Italica, Gallica, Hispanica... etc.)

Outras tinham nomes de algumas divindades, (Minerva, Apollinaris etc.), outros sobrenomes proveem de particularidades devido à sua formação, (Adiutrix=suplementária, Primigenia=legiões formadas por via de devisão).

Finalmente ao lado dos sobrenomes, encontramos os epítetos que correspondem às recompensas que receberam, devido à sua devoção ao culto do imperador, (Pias, victrix, fidelis...)

Legião I Adiutrix (Capricórnio)
Aquarteladaem Brigécio-Panônia Inferior

Galiano
Rev.  Capricónio, LEG I ITAL VI P VI F
Comemoração da participação da Legião I, na batalha contra Ingênuo
(Ref. RIC- 315)

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG I ITAL VI P VI F
Comemoração da participação da Legião I, na batalha contra Ingênuo
(Ref. RIC-315)

Segundo Dião Cássio, a Legião I Adiutrix foi fundada no reinado de Galba.
Durante a guerra de sucessão ela tomou o partido de Otão, foi vencida por Vitélio que a enviou para Espanha, e mais tarde para a Germânia.
No ano 83, esta  legião também participou na guerra de Domiciano contra os Catos ou Cáticos, (antiga tribo germânica).

Alguns anos depois, a Legião I também defendeu a Moesia contra os dácios.
Foi aquando da nominação de Nerva como imperador, que ela obteve o seu primeiro título de Pia Fidelis.
O imperador Trajano também a utilizou  a Legião I Adiutrix, para conquistar a Dácia e, também fez parte das três legiões que ocuparam o território Dácio.
Esta mesma legião, também serviu o imperador Trajano nas suas operações contra o império Parta.
Finalmente o imperador Adriano aquartelou-a em Panónia.

Por cerca dos anos 171-175, a Legião I Adiutrix foi comandada por Pertinax que se tornou imperador em 193.
Depois do assassinato deste imperador efémero, a Legião I juntou-se a Septímio Severo e participou na marcha sobre Roma contra Dídio Juliano.
Imediatamente após esta vitória, foi enviada combater Pescênio Níger e em seguida, combateu contra  o Império Parta.

Durante o reinado de Galiano, a Legião I Adiutrix esteve sempre aquartelada em Panônia.
Os títulos dados nesta moeda são “sextum pia, sextum fidelis”. Ela participou na vitória contra os ursupadores Regaliano e Ingênuo.
Os seus emblemas eram o Capricórnio e o Pégaso.

Legião I Adiutrix (Capricórnio)
Aquarteladaem Brigécio-Panônia Inferior

Galiano
Rev. Javali, LEG I ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-320)

Legião I de Minerva (Minerva)
Aquartelada em Bona (Germânia Inferior) Alemanha

Galiano
Rev. Minerva, LEG I MIN VI P VI F
(Ref. RIC-322)

Galiano
Rev. Minerva, LEG I MIN VI P VI F
(Ref. RIC-322)


Legião II Adiutrix  (Pégaso)
Aquartelada em Aquinco (Panônia Inferior) Budapeste

Galiano
Rev. Pégaso, LEG II ADI VI P VI F
(Ref. RIC-324)

Galiano
Rev. Pégaso, LEG II ADI VI P VI F
(Ref. RIC-324)


Legião II Pártica (Centauro)
Aquartelada em Alba (Itália)

Galiano
Rev. Centauro, LEG II PART VI P VI F
(Ref. RIC-332)

Legião II Italica (Loba, amamentando Rómulo e Remo)
Aquartelada em Lauriacum (Nórica) perto de Linz, Áustria


Galiano
Anv. Loba amamentando Rómulo e Remo,  LEG II IT AL VI P VI F
RIC-329

Legião III Italica (Cegonha)
Aquartelada em Castra Regina, (atual Ratisbona)  Alemanha 

Galiano
Rev. Cegonha,  LEG III ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-339)

Galiano
Rev. Cegonha, LEG III ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-339)

Galiano
Rev. Cegonha, LEG III ITAL VI P VI F
(Ref. RIC-339)

Legião IV Flavia (Leão)
Aquartelada em Sigidunum -Mésia ou Moésia Superior, (atual Sérvia)

Galiano
Rev. Leão, LEG IIII FLVI P VI F
(Ref. RIC-343)

Legião V Macedónica (Águia a ser coroada por uma Vitória)
Aquartelada em Potaissa-Dácia (atual Roménia)

Galiano
Rev. Águia a ser coroada por uma Vitória,  LEG V MAC VI P VI F
(Ref. RIC-345)


Legião VII Claudia (Touro, Bisonte ou Leão com chifres)
Aquartelada em Viminacium (Mésia ou Moésia Superior) atual Sérvia

Galiano
Rev. Bisonte ?, LEG VII CL VI P VI F
(Ref. RIC-348)

Legião VIII Augusta (Touro, Bisonte ou Leão com chifres)
Aquartelada em Argentorato durante muitos anos?(atual Estrasburgo-Alsácia. França)

Galiano
Anv. Touro, LEG VIII AVG VI P VI F
(Ref. RIC-353)

Fundada por Júlio César (13 de julho100 a.C.-15 de março 44 a.C.), continuou ao serviço de Roma durante 400 anos.
Diz-se ter sido fundada no ano 59 a.C., (mas possivelmente mais cedo).
Entre 58 e 49 a.C., combateu nas guerras gaulesas e, no ano 49 a. C., a Legião VIII, acompanhou Júlio César na travessia do rio Rubicão para entrar na Itália e, foi ela que em primeiro entrou em Roma.

No início da guerra civil entre César e Pompeio, a Legião VIII teve muitos sucessos especialmente na Batalha de Farsalos.
A VIII também estava no Egito quando Júlio César instalou Cleópatra VII, no trono do país.
No ano 46 a. C., a Legião VIII, ainda participou na Batalha de Tapso (Tunísia moderna), antes de ser desmobilizada.
A VIII, era a legião preferida de Júlio César que também tinha muito em consideração, as legiões  IX e X.
No ano 44 a.C., Octaviano voltou a reconstituir a legião VIII, que o ajudou a assumir o controle da República e transformá-la num império.
Esta reconstituição e fidelidade justificam o apelido dado à legião “Augusta”.

Legião X Gemina, (Touro, Bisonte ou Leão com chifres)
Aquartelada em Vindobana (Viena) Panônia Superior , a partir do II século da nossa era. 

Galiano
Rev. Leão com chifres, LEG X GEM VI P VI F
(Ref. RIC-357)

Legião XI Claudia (Netuno)
Aquartelada em Dorosturum na Mésia ou Moésia Inferior, (atual Silistra-Bulgária)

Galiano
Rev. Netuno, LEG XI CL VI P VI F
(Ref. RIC-359)

Também existe para esta legião, um único tipo conhecido,  referenciado por C G B
(Compagnie Général de Bourse)

Galiano
Anv. Javali, LEG XI CL VI P VI F
(Legio undecima Claudia, sextum pia, septimum fidelis)
(Ref. RIC- ?)

A única legião com o javali como símbolo, é a Legião I Italica.
Estas duas legiões estavam aquarteladas desde meados do século II na Mésia (ou Moésia) Inferior.

É possível que seja um erro do escultor que tenha confundido os dois símbolos: Netuno para a Legio XI Claudia Pia Fidelis e, o Javali  da Legio I italica.
A décima primeira legião Claudia, no início esteve aquartelada em Vindonissa na Germânia Superior, e mais tarde em Durostrum, Panônia Superior.

Eric Huysecom (antropólogo), no seu estudo sobre as moedas das legiões, fez uma observação interessante quanto o que a Legião I Italica e Claudia, as duas aquarteladas na Mésie Inferior têm dois emblemas dois quais um é um javali.
O antropólogo interroga-se sobre a relação  entre a representação do javali e a Mésia Inferior? 

Legião XIII Gemina (leão a ser coroado por uma Vitória)
Aquartelada em Apulum, na Dácia (Roménia), e Ratiaria, Dácia Ripense (Bulgária)


Galiano
Rev. Leão a ser coroado por uma Vitória, LEG XIII GEM VI P VI F
(Ref. RIC-360)

Legião XIIII Gemina (Capricórnio)
Aquartelada em Carnunto, Panônia Superior (Áustria)

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG XIIII GEM VI P VI F
(Ref. RIC-361)

Legião XX (Capricórnio)
Local do aquartelamento desconhecido

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG XX VI P VI F
(Ref. RIC-364)

Legião XXII (Capricórnio)
Aquartelada em Mongontiacum,  Germânia Superior

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG XXII VI P VI F
(Ref. RIC-366)

A Legião XXII Primigenia assim como a Legião XV Primigenia, foram fundadas pelo imperador  Calígula no ano 39 d. C., na ocasião da sua campanha contra os Catos (tribo germânica antiga).
Ela obteve o número XXII, em honra da Legião XXI (Rapax) que ela devia acompanhar a Xanten, (conhecida como Colônia Úlpia Trajana durante o período romano e foi a base de muitas legiões romanas na chamada Casta Vetera).
A Legião XV Primigenia foi criada para ajudar e servir a Legião XIV Gemina instalada em Mongotiacum (atual Mainz ou Mogúncia-Alemanha).
(Ver no fim, a conclusão do artigo).

Legião XXX Ulpia (Netuno)
Aquartelada na Germânia Inferior, na confluência dos rios  Reno e Lipp

Galiano
Rev. Netuno, LEG XXX VLP VII P VII F
(Ref. RIC-369)

Galiano
Rev. Netuno, LEG XXX VLP VII PVII F
RIC-369

A Legião XXX com o símbolo de Netuno, foi fundada pelo imperador Trajano que a aquartelou em Brigetio (Panônia Superior).
Trajano  combateu nas guerras dácias, também conhecidas por campanha dácia de Trajano, onde ele se  destacou e obteve o título de Victrix. Um dos seus destacamentos também participou nas guerras do Oriente.

No ano 119 a Legião XXX foi trasferida para Casta Vetera (Colónia Úlpia Trajana) que passou a ser a sua base militar.
Os seus destacamentos combateram na Mauritânia, sob o comando de Antonino Pio, no Oriente e contra os Marcomanos (tribo germânica) sob Marco Aurélio.

A Legião XXX também foi favorável a Septímio Severo, com o qual combateu na Birmânia.
Com Alexandre Severo, participou nas guerras romano-persas.
Também participou nas lutas dinásticas do século III.

Esta Legião desapareceu no século IV, mas, no século V, uma pseudo-legião derivada de uma das suas subdivisões, é considerada como uma Legião gaulesa.
No ano 260, sob as ordens de Póstumo, esta legião rebeliou-se contra Galiano.


Coortes Pretorianas(Leão com coroa radiada)
Aquarteladas em Roma
(Ver segundo capítulo: as legiões)

Galiano
Rev. Leão com coroa radiada, COHH PRAET VI P VI F
(Ref. RIC-370)

4-Conclusão

Apesar de todos os esforços de Galiano para as legiões lhe permanecerem fiéis, Aureolo, seu general que se distinguiu durante as campanhas militares, fez-se proclamar IMPERATOR AUGUSTUS em Milão pelos seus soldados, enquanto Galiano segundo Jordanes, (historiador de origem gótica, século VI), combatia os Godos, um povo germânico das regiões meridionais da Escandinávia.

É geralmente aceite que Galiano mandou cunhar moedas conhecidas como “emissões do bestiário”, para que os deuses o ajudassem na sua luta contra Aureolo que se tinha revoltado.
No ano 267, ele associou animais reais ou míticos, com legendas no anverso e reverso consagradas aos deuses do Panteão Romano evocando a sua proteção.

Seguem alguns exemplares a não confundir com as emissões das legiões:

Galiano
Rev. Cervo,  DIANE CONS AVG
(Ref. RIC-179)

Galiano
Rev. Antilope, DIANE CONS AVG
(Ref. RIC-181)

Galiano
Rev. Grifo, APOLLINI CONS AVG
(Ref. RIC-166)

Galiano voltou para a Itália e cercou Aureolo entrincheirado em Milão.
A vitória de Galiano estava práticamente adquirida quando uma conspiração foi formada entre os seus oficiais.
Com Aureliano (futuro imperador) à frente dos conspiradores, Galiano que contava 50 anos de idade, foi atacado de surpresa e ferido mortalmente.
Portanto, Galiano com a sua emissão do bestiário tinha pedido a proteção dos deuses e a fidelidade das legiões.
Quem foi o culpado? Certamente a época muito agitada: mas, um reinado de quinze anos nestas condições, já é muito excepcional.

Vamos regressar à cunhagem das legiões e falar no desastre de Varo:
Públio Quintílio Varo general romano, (c.46 a.C.-9 d.C9.

No ano 7, Augusto incubiu-lhe a organização da Germânia já conquistada na margem direita do Reno. A sua tentativa de substituir a lei germânica pela  lei romana  exasperou as populações.
Armínio, líder dos queruscos ganhou progressivamente  a confiança  de  Varo. Os germanos pareciam querer aceitar a dominação romana, pedindo com muita frequência a Varo para julgar os seus diferendos. 

No outono do ano 9, Armínio informou Vário que uma revolta ocorreu no interior da Germânia.
Imediatamente o general romano marchou para o local à frente de três legiões e algumas tropas germânicas.

Armínio conhecia bem o exército romano por ali ter servido, e as suas tacticas de funcionamento.
Uma vez chegados a uma região de muitos pântanos e florestas, os germanos abandonaram os romanos para se juntarem a outras tribos: a Batalha da Floresta de Teutoburgo (ou o massacre) durou vários dias.   

As tropas romanas foram massacradas, e Vário suicidou-se atirando-se sobre a sua espada.
O seu corpo foi todo mutilado e a cabeça enviada ao imperador  Augusto, que pronunciou esta frase.
«Vare, legiones redde» “Vare devolve-me as minhas legiões”.

Os números das legiões de Vário que foram exterminadas foram: XVII, XVIII, XIX, e estes números considerados nefastos, nunca mais foram atribuídos a outras legiões no império. Era assim o hábito na legião romana.

Há ainda uma outra moeda que não quizermos mencionar em cima e guardámos para o fim: é a RIC 362

Relativa à Legião XXII Primigenia, aquartelada em Mogontiacum, (atual cidade de Mainz-Alemanha), onde o gravador de cunhos fez o erro de notar II XX VI P VI F em vez de LEG XXII VI P VI F.

Galiano
Rev. Capricórnio, LEG IIXX VI P VI F
(Ref. RIC-362)

Com este erro na moeda, a Legião XXII transformou-se na Legião XVIII, número proibido após o desastre de Vário e, para maior infelicidade de Galiano...

(Nota sobre o touro, bisonte ou “leão com chifres”).
Numismatas profissionais, consideram que o peito largo, a cabeça erguida, a crina do leão nas moedas, não pode ser um touro.
Interpretam este tipo como um leão com chifres e, estes seriam o emblema de Diana.
Eric Huysecom interpreta o animal como um bisonte.



MGeada


Bibliografia
Burnett Andrw. La numismátique romaine , 1988.
Claude Nicolet ; Rome et la conquête du monde méditerranéen, éditions Puf, 2001.
Laurent Fleuret Les armées au combat dans les Annales de Tacite, Mémoire de maîtrise, Université de Nantes , 1997.
Mitchel Galleazzi ; Dictionaire Latin-Français aplique aux inscriptions monétaires romaines, 1994.
Pierre Cosme ; Les legions romaines sur le forum, Mélange de de l’ecole française de Rome, 1994.
Pierre cosme ; L’armée romaine , VIII siècle a.C., V siècle d.C., Armand Colin , 2007, pag 20.
Tive Live: Histoire Romaine: livre VIII, paragrafe 8,3.
Yann le Bohec ; L’armée romaine sous le haut empire, Paris, éditions Picard 2002,  3e. édition.

quinta-feira, 27 de abril de 2017



Na procura do dinheiro de Judas (2)

Tentar reconstruir uma história acerca do dinheiro que tenha sido objecto de troca na célebre traição de Judas, deveria, como trabalho de investigação, obedecer e respeitar certas características sobre o seu conceito e objectividade.
Em primeiro lugar exigirá o respeito pelo seu argumento histórico, e obviamente, uma comparação sobre as suas fontes, como forma da salvaguardar o melhor possível, tanto a sua fiabilidade, como a credibilidade, de que precisamos para corroborar os factos.
Infelizmente, neste caso, essa análise comparativa não será de todo possível, visto a sua génese, ter como único elemento de documentação, alguns legados evangélicos dos Apóstolos S. Marcos, S. Lucas, S. João e S. Mateus. Tudo o que realmente possuímos e sabemos sobre a traição de Judas, é-nos relatado por esses escritos bíblicos, e por isso também a análise terá de ser cautelosa e consciente, sobre a forma como o sentido místico em interpretações ulteriores, poderá ter tido influência e criado limitações quanto à veracidade dos factos.
Por tudo isto, nesta minha análise interpretativa deste “caso” histórico, pela sua forma intuitiva, torna-se mais empírica que científica.
Terá sido no ano19 d. C. no reinado do imperador Tibério que Jesus Cristo foi crucificado.
Nesse tempo, a Judeia era então uma província romana, e como tal nela se aplicariam as principais decisões que vinham de Roma. Seria portanto natural que a moeda principal que circulava fosse romana, ou provincial romana, embora se tenha conhecimento de que a algumas outras moedas fosse permitida a sua circulação, como o exemplo das moedas da dinastia de Heródes.
Na generalidade da literatura, argumenta-se que Judas terá recebido pelo préstimo da sua traição, trinta moedas de prata. Neste ponto creio que todos os historiadores convergem.
No meu ponto de vista, e para passar aos factos, pela característica que conhecemos hoje das moedas que então terão circulado, excluo as moedas de ouro como o”áureo”, o ”quinário” em prata, assim como os “sestércios”, “dupôndios” e “asses”, geralmente cunhados em bronze.
Interessante salientar contudo, que no reinado de Tibério, só foram cunhados dois tipos de “denário”(denário do latim denarius) em prata. Não havendo conhecimento de que tenha sido cunhado nenhum outro tipo de moeda em prata, durante o período deste imperador.

Tibério-Denário emitido no ano 14 d.C. em Lião (França) 3,78grs.)


O primeiro denário, cunhado no ano 14 d.C. em Lião, apresenta no anverso o busto do imperador Tibério com a legenda “TI CAESAR DIVI AVG F AVGVSTVS”. No reverso apresenta Lívia, (sua mãe) ou a Pax, sentada, com um ramo de oliveira na mão esquerda, e um bastão na mão direita, com a legenda “PONTIF MAXIM”. ( Há divergências acerca da  figura do reverso).
O segundo, terá sido cunhado no ano 16 d.C., e igualmente em Lião. Também este apresenta no anverso, o busto de Tibério, com a mesma legenda do primeiro. No reverso, apresenta o imperador conduzindo uma quadriga, com a legenda “TR POT XVII IMP VII”. O seu peso era variável, e valeria o equivalente a dez “asses”.
Temos então, que estas moedas circulariam em todo o império, aquando da morte de Jesus Cristo. E, poderíamos concluir, que qualquer destas moedas “denários”teria grandes probabilidades de ter servido de aliciamento no negócio que propuseram a Judas. Mas, porque não inclui-los também misturados com outras moedas, ou simplesmente um outro tipo de moeda em prata?
Alguns elementos substanciais transmitidos no legado dos quatro apóstolos servem para esclarecer algumas dúvidas sobre estas hipóteses.
Hoje, no nosso quotidiano, e na nossa cultura, utilizamos o termo “dinheiro”. Mas, na ligação que se lhe faz, quando se menciona este caso de Judas, a palavra “dinheiro”, terá evoluído, e colado na sua identificação popular, aparecendo o termo tanto na literatura, como no cinema, e em que usado desta forma, se estará a deformar uma realidade histórica.

Tibério-Denário emitido no ano 16 d.C. em Lião - 3,94grs.)


Nas sagradas escrituras, no que pesquisei, não vi mencionada a palavra “dinheiro”. Uma bíblia editada em 1859, que folheei numa biblioteca, foi-me bastante útil.
Dos quatro evangelistas que se referem a este caso, dois deles, S .Marcos e S. Lucas, afirmam que Judas vendeu Jesus, mas sem dar pormenores sobre o montante do negócio.
No evangelho de S. João, faz referência a trinta moedas de prata.
É contudo, S. Mateus que na sua narração, nos poderá esclarecer mais sobre este assunto.
Acusando o seu condiscípulo Judas, por este ter vendido o Mestre pela soma de trinta “siclos”de prata. Teria ele sido colector de impostos para falar desta maneira tão formal, no que se refere a “siclos”de prata?
Não encontrei nada, que me tenha dado indicação de que alguma vez se tenha usado a palavra “siclo” em referência  ao assunto que tratamos.
O termo “siclo” é conhecido como uma medida antiga, que equivalia a 6 gramas de prata.
Mas na narrativa de S.Mateus, também poderia ser a moeda de prata utilizada por fenícios e hebreus, que em hebraico era designado por “shekel”.
É pois muito provável que Judas tenha traído, e sido pago com 30 (trinta) “shekels” de prata.
Julgo que naquela época, o único tipo de moeda de 1 (um) shekel em prata que circulou na região tenha sido o “shekel” dito de Jerusalém (como nas moedas de Tiro).

Era uma moeda que pesava mais ou menos 14 a 15 gramas, e circulou em grande quantidade, tendo sido feitas várias cunhagens deste tipo de moeda. Uma delas foi precisamente no ano 33 d.C. O ano da suposta morte de Jesus Cristo? Aqui também existem muitas divergências, embora as datas que aparecem com mais frequência sejam entre os anos 30 e 33 d.C.
O “shekel de Jerusalém” em baixo retratado, apresenta no anverso o rosto do antigo deus Melkart, também conhecido por Baal, virado à direita, e no reverso apresenta uma águia virada à esquerda.

Judeia-Shequel de prata 14,27grs. cunhado em Jerusalém 12/11 a.C., ((  provavelmente terá servido de tributo a Judas)) A efígie de Melkart é totalmente diferente do shekel de Tiro).

Atendendo a que o preço de um escravo, naquela época, seria de 180 g de prata, poderemos calcular que Judas no negócio efectuado, teria vendido o Mestre por cerca de 4,250 Kg de prata.
Creio pois, ser o “shekel de Jerusalém” a mais provável moeda que procuramos identificar nesta história, pese embora o risco de decepcionar alguns coleccionadores que já possuam uma, ou as duas variantes do “denário” de Tibério, denominados por “dinheiro de Judas”.
Contudo, estes dois “denários” continuam a ser extremamente interessantes, quem sabe se não terão sido utilizados pelos soldados romanos que guardavam o sepulcro, enquanto jogavam aos dados sobre a túnica de Jesus Cristo, o que lhes confere sempre uma grande história.
O que lamentamos, é que ao longo dos tempos o conceito que nos parece mais plausível para esta história, por motivos menores, se tenha adulterado, e sobreposto ao texto original.
Dizer que Judas entregou Jesus Cristo por 30 dinheiros, sempre é mais cómodo que dizer, Judas entregou Jesus Cristo por 30 shekels.
Afirmar quais as moedas que pagaram a traição de Judas, é tarefa difícil, senão impossível.
Denários da época de Augusto? Dracmas, siclos, ou shekels?
Pouco provável é que tenha recebido denários de Tibério. Isto porque mesmo as cunhagens em grande quantidade, demoravam muito tempo a entrar em circulação, sobretudo nas províncias longínquas do império, como a Judeia onde circulavam muitos tipos de moeda.
Esta questão, levantou-se na Idade Média, e foi proposto ou entendido pelos dirigentes eclesiásticos da época, que a moeda representativa desse facto histórico deveria ser uma moeda que representava Cristo com uma coroa de espinhos. De facto existe um “dracma”de Rodes que representa o deus Hélios ( na mitologia associado ao Sol), com a cabeça adornada com raios, parecendo Jesus Cristo com a coroa de espinhos. Essas moedas, foram na época alvo de uma grande devoção.

6 Cária-Rodes, Dracma 175-170 a.C.

 Porque razão Judas traíu Cristo?

Durante séculos, este personagem tem fascinado teólogos, artistas, intelectuais, que se interrogam motivo que o levou a cometer este crime, e avançam com algumas hipóteses.


Judas Iscariote (ou Iscariot ou Iscarioth) foi segundo a tradição cristã, um dos doze apóstolos de Jesus de Nazaré.
Segundo os evangelhos canônicos, Judas facilitou a prisão de Jesus por internédio dos  sumos sacerdotes de Jerusalém, que em seguida o entregaram a Ponce Pilatos.

A figura “evanescente” deste personagem é motivo de muita controvérsia na historiografia cristã, a sua autenticidade permanece muito frágil e levanta dúvidas sobre uma parcela significativa das críticas.
 
Bandido ou revolucionário?
O cristianismo baseado no evangelho de João, fez de Judas um vulgar criminoso atraído pelo dinheiro fácil, que entregou o mestre por algumas moedas.
Mas, esta hipótese é muito contestada:  a quantia oferecida a Judas  pelos romanos  (trinta denários ?) é insignificante,  porque Judas enquanto tesoureiro dos apóstolos tinha oportunidade de se apropriar importâncias  mais elevadas. 



“O seu nome Iscariotes, também faz pensar que era, ou foi membro dos sicários, judeus “zelotes” que defendiam a rebelião armada contra os romanos.
Finalmente decepcionado por Jesus um Messias muito pacifista, terá motivado Judas a cometer a sua traição.

Todavia, a influência dos sicários parece ser posterior à morte de Jesus.
No entanto, a pista de um conflito, uma  incompatibilidade ideológica entre um dirigente idealista e Judas, continua a ser possível.

(Sicário :(em latin sicarius) - “homem da adaga”, é um termo aplicado nas décadas imediatamente precedentes à destruição de Jerusalém no ano 70, para definir um grupo extremista separatista de zelotas judeus que tentavam expulsar os romanos e seus simpatizantes da Judeia.
Os sicários utilizavam a “sica”, termo latino para um tipo de adaga pequena que escondiam nos seus mantos).

Aquando de reuniões públicas, eles sacavam estas adagas para atacar os romanos ou judeus simpatizantes, se misturando depois à multidão para se escaparem.
Os sicários foram um dos primeiros grupos organizados cujo objetivo era a realização de assassinatos, muito antes dos assassinos  do Oriente Médo e dos ninjas japoneses.



Judas, um traidor necessário?
Antes do reaparecimento do Evangelho de Judas, a teologia já tinha avançado com a possibilidade de um “traidor messiânico”, sacrificado para que se realizasse o destino de Jesus.
Efetivamente, sem Judas não teria havido cruxificação nem ressurreição.
A questão da punição divina reservada a Judas e, uma possível indulgência tem sido um assunto de muitas divergências nos debates teológicos.
O olhar, (ou por outras palavras  direi o julgamento do cristão),  sobre este personagem amaldiçoado, passou a ser mais indulgente a partir século XIX.

O Novo Testamento, dá-nos duas versões diferentes sobre a morte de Judas.
No Evangelho segundo São Mateus, Judas morre logo após a condenação de Jesus.
Este cheio de remorso foi ao encontro dos sacerdotes e anciãos e disse-lhes.
Pequei traindo um inocente.  Em seguida retirou-se , atirou com as moedas para o templo e enforcou-se. (Mateus 27,5 TOB).


Os atos dos Apóstolos (1,18) dão-os outra versão.
“Depois de adquirir um campo com o salário do seu crime, Judas caíu , quebrou pelo meio e, todas as suas entranhas se espalharam à sua volta.



Há dois mil anos, Judas Iscariotes entrou para a história por ter entregado Cristo a troco de algum dinheiro.
Todavia, o enigna referente à quantia e  identificação das moedas  que recebeu em troco da sua traição, ainda não foi desvendado.

Manuel Félix Geada Sousa


Bibliografia

André Paul ; La Bible avant la Bible : La grande révélation des manuscrists de la Mer Morte, éd. Cerf, Paris, 2 005.
James M. Robinson; Les secrets de Judas, Histoire de l’apôtre incompris et de son evangile- éd. Michel Lafon, 2 000.
Le Douzième Apôtre; Fac- Reflexion n°22, Fevereiro 1993, PP 14-26 (Le cas de Judas et la doctrine de la reprobation)
Centre Numismatique du Palais-V. S. O.  Paris 28-06-2002. 

Notas e referências

Mireille Hadas Lebel, Jerusalém contre Rome, éd. Cerf, Paris 1 990, p, 416-417.
Simon Claude Mimouni, La figure de Judas et les origines du christianisme : entre tradition et histoire, publié par Maddalena  Scopello, éd. Brill, Danvers, 2 008.
Simon Claude Mimouni, Le judaisme ancien du VI a.C., au III siècle d.C., éd. PUF,  2 012, p, 469.

terça-feira, 28 de março de 2017



Jogos de circo em moedas de Septímio Severo e filho Caracala

Este tipo monetário em moedas dos imperadores Septímio Severo e do seu filho Caracala, é único nas cunhagens romanas.
São de facto  umas das moedas romanas mais espetaculares e mais cobiçadas pelo colecionadores.
Este tipo com jogos de circo é inabitual: além disso, tantos pormenores gravados  num denário ou num áureo com menos de 20 mm de diâmetro é muito raro mas, aparece com alguma  frequência  em moedas grandes de bronze: sestércios, dupôndios, asses,  medalhas . 

Septímio Severo-Denário cunhado em Roma em 202-204
Anv. Septímio laureado à direita, SEVERVS PIVS  A G
Rev. Galera, 4 quadrigas e 7 animais, LAETITIA TEMPORVM
(Ref. RIC-274, RSC-253, BMC-343)

Septímio Severo-Áureo cunhado em Roma em 206
Anv. Septímio laureado à direita, SEVERVS PIVS  A G
Rev. Galera, 4 quadrigas e 7 animais, LAETITIA TEMPORVM
(Ref-RIC- 274, H-476)

As moedas em questão apresentam um navio cercado por quadrigas e animais.
Esta estranha iconografia relata um fato, um evento histórico: as grandiosas festas organizadas por Septímio Severo no Circus Maximus (Circo Máximo).
No entanto os pesquisadores nem sempre estão de acordo sobre a data dos eventos relatados. As festividades do ano 202 após o triunfo do imperador sobre os partas, o casamento do seu filho mais velho com a filha do Prefeito do Pretório, as suas decenales ou ainda os jogos seculares em 204?

Segundo Dion Cassius (Dião Cássio, livro LXVI), estes jogos tiveram lugar no ano 202, também com grande variedade de espectáculos na ocasião do regresso de Severo, do décimo ano do seu reinado e das suas vitórias .

Para dar início aos  jogos afrontaram-se entre eles 60 javalis, propriedade de  Plutianus (Caio ou Lúcio Fúlvio Plauciano); foram degolados grandes quantidades de outros animais, assim como um elefante e um “crócota”.

Este último originário da Índia, nunca tinha sido visto em Roma;  o seu corpo e a cor seria uma mistura de leão e trigre.   
Estrabão que usa a palavra crocuttas, descreve o animal como um descendente misto de cão e lobo; enquanto  Plínio também o descreve misto de cão e lobo, ou entre hiena e leão.

A enorme jaula construída em forma de barco, para poder receber os 400 animais, ter-se-à abrido de repente soltando  ursos, panteras, leões, avestruzes, onagros, bisontes, búfalos e outros, que logo se guerrearam entre eles e, como a festa durou mais tempo do que o previsto, foram necessário mais 300 totalizando 700 animais selvagens e domésticos que lutaram entre eles, e mataram-se uns aos outros.

Também é possível que Dião se tenha confundido com os jogos do ano 204.
Todavia,  este tipo monetário é persuasivo com o encadeamento dos jogos, e com o recito de Dião Cássio que nos diz que 7 animais se escaparam do barco e que encontramos na moeda: avestruz, leão, onagro, búfalo, pantera, leão e urso. estes dois mais difícies de localizar na moeda.

Caracala-Denário cunhado em Roma em 206
Anv. Caracala laureado à direita, ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Galera, 4 quadrigas e 7 animais, LAETITIA TEMPORVM
(Ref. RIC-157, BMC-508, Cohen-118, Hill-793

Os jogos foram sem dúvida no Circo Máximo, as quadrigas no cimo do reverso da moeda em questão não deixam dúvidas. Mas, acima de tudo distingue-se perfeitamente as instalações no centro da pista (spina). Com efeito, o obelisco central de Ramssés II, serve de mastro ao barco.

Na proa e na popa, veêm-se as metae, terminais cónicos em torno dos quais os carros davam a volta.
Entre as duas extremidades são visíveis diversas instalações: edículas ou pequenos santuários, mais visíveis nos áureos.

Caracala-Áureo cunhado em Roma em 206
Anv. Caracala laureado e drapeado à direita,
ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Galera, 4 quadrigas e 7 animais, LAETITIA TEMPORVM
(Ref. RIC-133, BMC-263, pl.34, 4, Kent-Hirmer pl.113,391, Calicó-2686, Biaggi-1179)

Caracala-Áureo cunhado em Roma em 213
Anv. Caracala laureado e drapeado à direita, 
ANTONINVS  PIVS AVG
Rev. Circo Máximo, P M  TR P XVI COS IIII P P
(Ref. RIC IV-211b, BMCRE pg. 439, Calicó-2710)
(Raríssimo, cunhado no ano 213 para comemorar a renovação do circo por Caracala. Estimado a 75 000 euros, foi vendido por160 000)

Segundo O historiador Plínio, o Circo Máximo (ou Circo Grande)  podia receber 150 000 espetadores, seja cerca de  três vezes mais que o Coliseu.

Caracala-Sestércio cunhado em Roma em 213
Anv. Caracala laureado e drapeado à direita,
M AVREL ANTONINVS PIVS AVG BRIT
Rev. Circo Máximo, P M TR P XVI IMP II  COS III PP  SC
(Ref. Cohen-236, RIC-500a)

Os jogos seculares do ano 204, terão ficado gravados na memória dos romanos como grandiosas cerimónias, associando celebrações religiosas e festividades civis diurnas e noturnas, com representações teatrais e jogos de circo.

A chegada do novo século que todos esperavam ser bom; foi de facto uma oportunidade para o poder romano se mostrar unido sobre a proteção dos deuses: entre outros, Hércules e Liber Pater deus da vinha, (assimilado a Baco ou Dionísio) protetores do imperador Septímio Severo.

Septímio Severo-Áureo cunhado em Roma em 204
Anv. Septímio laureado à direita,
SEVERVS PIVS AVG
Rev. Liber (Baco) com um bastão na mão esquerda e Hércules com a moca ou maça na mão direita, COS III LVDOS SAECVL FEC
(Ref. Cohen-108)

Caracala-Áureo cunhado em Roma em 202-204
Anv. Caracala laureado e drapeado à direita,
ANTONINVS PIVS AVG
Rev. Liber (Baco) com um bastão na mão esquerda e Hércules com a moca ou maça na mão direita, COS III LVDOS SAECVL FEC
(Ref. RIC-74b, Cohen-51var., BMC-275 a, Calicó-2668)

Durante todo o seu reinado Septímio realçou a sua família: a nova dinastia dos Severos (tal como a  Nerva-Antonina) no auge do seu poder.
O pregoeiro que convidava o público a assistir a estes jogos, presenteava-os com uma fórmula que se tornou tradicional: “jogos que nunca viram, e não voltarão a ver.

Os jogos seculares (em latim, ludi saeculares) festejavam o fim de um centenário e o início do seguinte.

MGeada

Bibliografia

Christol M.; L’Empire romain du III siècle, 2ème edition, Editions Errance.
Compagnie Général de Bourse ; Rome VIII, Vente à prix marqués.
Daguet Gagey, A. ; Septime Severe- Rome, l’Áfrique et l’Orient, Biografhie Pavot.
Darenberg et Saglio, diccionaire des antiquités grecques e romaines.
François Zosso- Christian Zingg ; Les empereurs romains-27 av. J.C.-476 ap. J. C.
Gagé J. ; Les jeux séculaires de 204 ap. J.C. et la dinastie des Severes.
Hill P. V. ; The coinage of Septimius Severus and his familly of the Mint of  Rome, Sanford J. Durst.
L’histoire du peuple romain, Editions Gallimard-Larrousse.
Jérôme Carcopino ;  La vie quotidienne à l’apogée de l’Empire, Editions Hachete.
Paul Werner ; La vie à Rome aux temps antiques, Editions Minerva